Bianchi enfrenta crise financeira, acumula € 100 milhões em dívidas e inicia processo de reestruturação
Uma das marcas mais tradicionais da história do ciclismo mundial enfrenta um dos momentos mais delicados de seus 141 anos de existência. A italiana Bianchi iniciou um processo de reestruturação financeira para negociar suas dívidas com credores e tentar recuperar o equilíbrio econômico da empresa. Segundo informações publicadas pela imprensa especializada internacional, as obrigações financeiras da fabricante chegam a aproximadamente € 100 milhões.
Fundada em 1885, em Milão, por Edoardo Bianchi, a fabricante construiu uma trajetória diretamente ligada à evolução do ciclismo profissional. Reconhecida mundialmente por suas bicicletas na tradicional cor Celeste, a empresa forneceu equipamentos para grandes campeões e esteve presente em algumas das principais competições do calendário internacional.

Agora, entretanto, a companhia precisa enfrentar os efeitos de uma estratégia de expansão que coincidiu com uma forte desaceleração do mercado global de bicicletas após o crescimento excepcional registrado durante a pandemia.
A situação ganhou ainda mais repercussão depois que a Bianchi encerrou antecipadamente sua parceria com a equipe Bahrain Victorious, deixando de fornecer bicicletas para uma das estruturas do WorldTour.

Bianchi recorre à Justiça para negociar dívidas
De acordo com documentos judiciais divulgados pela imprensa italiana e internacional, a Bianchi solicitou, em 30 de setembro de 2026, adesão ao procedimento conhecido na Itália como Composizione Negoziata della Crisi d’Impresa.
Trata-se de um mecanismo jurídico que permite a empresas em dificuldades financeiras negociar com seus credores, buscando reorganizar suas obrigações e preservar a continuidade das atividades.
O procedimento foi aprovado pelo Tribunal de Bergamo em outubro e prevê proteção temporária contra determinadas medidas de cobrança por parte dos credores. Entre elas estão ações que poderiam resultar na apreensão de equipamentos industriais, estoques ou recursos financeiros da companhia.

A negociação é acompanhada por um profissional independente, responsável por mediar o diálogo entre a empresa, bancos e fornecedores.
Os números ajudam a dimensionar o desafio. Conforme o último balanço anual disponível, referente ao exercício de 2024, as obrigações financeiras da Bianchi estavam próximas de € 100 milhões, sendo aproximadamente € 64,3 milhões relacionados a instituições bancárias.
A empresa também acumulou prejuízos expressivos nos últimos exercícios, com perdas estimadas em aproximadamente € 28 milhões entre 2023 e 2025.
É importante destacar que a adoção desse procedimento não significa que a Bianchi tenha declarado falência ou anunciado o encerramento de suas operações. O objetivo é justamente encontrar uma solução negociada para evitar que as dificuldades financeiras comprometam a continuidade da fabricante.

A nova fábrica de € 40 milhões e o impacto da crise do mercado
Uma das principais explicações para a atual situação financeira está relacionada aos investimentos realizados durante o período de expansão do mercado de bicicletas.
Em 2021, quando a procura por bicicletas crescia em diversos países, a Bianchi decidiu investir fortemente na ampliação de sua estrutura industrial na Itália.
O projeto envolveu a construção de uma nova fábrica em Treviglio, na região da Lombardia, inaugurada em junho de 2024. O investimento foi superior a € 40 milhões e tinha como objetivo modernizar a produção, recuperar parte da fabricação em território italiano e ampliar a capacidade industrial.
O complexo foi planejado para alcançar uma capacidade de produção superior a mil bicicletas por dia, com processos industriais automatizados e estrutura para diferentes categorias de produtos.
A decisão fazia sentido diante das perspectivas de crescimento observadas durante a pandemia. Naquele momento, a demanda por bicicletas estava elevada, os estoques das lojas diminuíam rapidamente e fabricantes enfrentavam dificuldades para atender aos pedidos.
O problema foi a mudança brusca desse cenário.
Com o fim das restrições sanitárias, parte dos consumidores reduziu as compras de bicicletas. Ao mesmo tempo, fabricantes e distribuidores começaram a enfrentar estoques elevados, excesso de oferta e necessidade de realizar promoções para movimentar os produtos.
A Bianchi passou a carregar uma estrutura industrial mais cara justamente quando o mercado perdia força.
Segundo informações divulgadas pelo veículo italiano L’Eco di Bergamo, a receita da companhia chegou a aproximadamente € 114 milhões em 2024, contra cerca de € 57 milhões em 2019. Apesar do crescimento do faturamento, a expansão não foi suficiente para garantir resultados financeiros positivos diante dos custos e dos investimentos realizados.
Empresa admite que tentou crescer em muitas frentes
Em entrevista ao veículo especializado Escape Collective, o CEO interino Tony Grimaldi reconheceu que a empresa adotou uma estratégia excessivamente ambiciosa.
Segundo o executivo, a fabricante tentou investir em muitas áreas simultaneamente, em um momento em que o setor enfrentava dificuldades para absorver a quantidade de bicicletas disponíveis no mercado.
A expansão envolveu não apenas a nova fábrica, mas também o desenvolvimento de bicicletas elétricas, ampliação de linhas de produtos e investimentos na distribuição internacional.
A estratégia acabou aumentando a complexidade operacional e os custos da empresa.
O cenário também foi agravado pela concorrência de fabricantes que passaram a reduzir preços para escoar seus estoques. Em um mercado com excesso de produtos disponíveis, manter margens comerciais tornou-se um desafio ainda maior.
A situação mostra como até fabricantes com forte reconhecimento internacional podem enfrentar dificuldades quando os investimentos realizados durante um período de crescimento não encontram a demanda esperada nos anos seguintes.
Bianchi confirma continuidade das operações e anuncia mudança de estratégia
Em comunicado divulgado em 5 de novembro, a Bianchi procurou esclarecer sua situação e tranquilizar distribuidores, lojistas e consumidores.
A empresa afirmou que continua operando e mantendo o atendimento aos seus parceiros comerciais e clientes, incluindo entregas, obrigações de garantia e serviços de pós-venda.
A fabricante também informou que o processo de reorganização está sendo conduzido pela atual administração, com o objetivo de colocar sua situação financeira em uma base sustentável.
Outro ponto importante do comunicado foi o anúncio de uma mudança de foco estratégico.
A Bianchi pretende concentrar seus esforços nas categorias de estrada, gravel e bicicletas de alto desempenho, áreas nas quais acredita possuir maior credibilidade e reconhecimento entre os consumidores.
Os primeiros produtos desenvolvidos dentro dessa nova orientação deverão ser apresentados no início de 2027.
A decisão pode representar uma tentativa de reduzir a dispersão de investimentos e concentrar recursos nos segmentos mais diretamente relacionados à identidade histórica da fabricante.
Fim da parceria com Bahrain Victorious aumenta a repercussão
A crise financeira também coincide com uma mudança importante na presença da Bianchi no ciclismo profissional.
Em 29 de outubro, a fabricante e a equipe Bahrain Victorious anunciaram o encerramento antecipado de sua parceria, com efeito imediato.

O acordo havia sido apresentado como uma colaboração de vários anos, representando o retorno da Bianchi ao primeiro escalão do ciclismo masculino internacional.
A partir de 2027, a Bahrain Victorious utilizará bicicletas da marca britânica Factor.
Embora a proximidade entre os acontecimentos tenha levantado questionamentos sobre uma possível relação entre a crise financeira e o encerramento do patrocínio, não foi divulgada uma confirmação oficial de que as dificuldades econômicas tenham sido a causa direta da separação.
De qualquer maneira, perder uma equipe do WorldTour representa uma redução importante da exposição internacional da marca, especialmente em competições como Giro d’Italia, Tour de France e Vuelta a España.
Historicamente, a presença no ciclismo profissional sempre foi uma das principais ferramentas de posicionamento comercial da Bianchi.
Qual será o futuro de uma das marcas mais tradicionais do ciclismo?
O desafio da Bianchi agora é encontrar um equilíbrio entre sua tradição, sua estrutura industrial e as condições atuais do mercado.
A empresa possui uma história que atravessa mais de um século, além de reconhecimento internacional e uma identidade visual facilmente associada ao ciclismo de alto desempenho.
Entretanto, tradição e reputação não são suficientes para garantir competitividade em um setor que passou por mudanças importantes nos últimos anos.
O excesso de estoques, a pressão sobre os preços, a concorrência internacional e a redução da demanda após o boom da pandemia transformaram o ambiente de negócios para fabricantes de bicicletas em diferentes segmentos.
A nova orientação estratégica, concentrada em estrada, gravel e performance, pode ser um caminho para recuperar a identidade comercial da marca e melhorar sua eficiência operacional.
Por enquanto, não há anúncio de fechamento da fábrica de Treviglio nem de encerramento das atividades da fabricante. A Bianchi afirma que continuará atendendo seus clientes e trabalhando com seus fornecedores enquanto negocia uma solução financeira.
Os próximos meses serão decisivos para determinar se a empresa conseguirá reorganizar suas contas e preservar sua posição na indústria mundial de bicicletas.
Para uma fabricante fundada em 1885, o desafio agora é transformar mais de um século de tradição em uma estrutura empresarial sustentável para as próximas décadas.

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