Ciclistas decidem competição de 197 km por apenas 4 milímetros (ou 0,00028 segundos) – assista a chegada
Remco Evenepoel conquistou pela primeira vez o campeonato europeu de estrada na categoria elite masculina. O belga venceu Giulio Ciccone (Itália) em um sprint decidido no photo finish, depois de uma prova de 197 km marcada por ataques, uma queda e uma longa perseguição entre os dois principais protagonistas da parte final da competição.

A vitória teve um significado adicional para Evenepoel, que vinha de uma participação decepcionante na prova de estrada do Campeonato Mundial. Em busca de uma resposta esportiva, o belga assumiu papel central na definição da corrida e foi responsável por grande parte do trabalho quando escapou junto com Ciccone.
O italiano chegou a ter vantagem no sprint final após executar melhor a última curva. Ciccone entrou na reta com algumas bicicletas de vantagem, mas Evenepoel recuperou terreno nos metros finais e conseguiu projetar a bicicleta sobre a linha de chegada no momento exato. O resultado precisou ser confirmado pelo photo finish.
Christian Scaroni, também da Itália, terminou 59 segundos depois e completou o pódio. Toms Skujiņš, da Letônia, foi quarto, a 1min13s do vencedor. Iván Romeo, da Espanha, terminou na quinta colocação, três segundos atrás de Skujiņš.
Uma prova de 197 km com seleção pela subida
A prova masculina teve 197 km e apresentou uma configuração semelhante à competição feminina, com aproximadamente 85 km iniciais predominantemente planos antes da entrada no circuito decisivo.
Os ciclistas completaram cinco voltas no trecho final, tendo a subida de Možjanca como principal ponto de seleção. A ascensão foi determinante para reduzir progressivamente o pelotão e estabelecer as diferenças que definiriam a disputa pela vitória.
Uma fuga formada por seis ciclistas conseguiu abrir mais de um minuto de vantagem ainda nas primeiras passagens pelo circuito. O movimento, porém, não prosperou. O grupo foi neutralizado quando restavam 82 km para a chegada.
A partir desse momento, a combinação entre ritmo elevado e as sucessivas passagens pela subida provocou uma seleção natural no pelotão. Entre os ciclistas que perderam contato esteve Juan Ayuso, da Espanha, enquanto o grupo de favoritos se tornou cada vez menor.
Na penúltima passagem pela subida, a equipe da Eslovênia assumiu o controle do ritmo. A expectativa era de uma movimentação de Primož Roglič, mas o primeiro ataque importante partiu de Giulio Ciccone.

Ciccone ataca e Evenepoel responde
Ciccone acelerou quando faltavam aproximadamente 36,3 km para a chegada. Evenepoel respondeu praticamente de imediato e chegou a passar à frente do italiano, imprimindo um ritmo elevado na subida.
Foi nesse momento que ocorreu o principal incidente da corrida.
Evenepoel entrou rápido demais em uma curva à direita e perdeu a aderência da roda dianteira. O belga caiu, mas conseguiu retomar a bicicleta e continuar na prova sem sofrer consequências que o impedissem de disputar a vitória.
Ciccone passou pelo topo da subida sozinho, enquanto Primož Roglič aparecia como um dos principais nomes na perseguição. Mais atrás, a equipe belga assumiu o trabalho para manter o italiano ao alcance.
A estratégia funcionou. Evenepoel voltou a acelerar e conseguiu alcançar Ciccone. Quando faltavam 25 km para a chegada, os dois já tinham construído uma vantagem de 12 segundos sobre o grupo perseguidor.
Entre os ciclistas que tentavam reduzir a diferença estavam Roglič, Toms Skujiņš, Emil Herzog, Iván Romeo, Ramses Debruyne e Maxim Van Gils, companheiros de Evenepoel na seleção belga, além dos franceses Léo Bisiaux, Manhys Rondel e Clément Braz Afonso e do italiano Christian Scaroni.
Evenepoel assume o controle
A partir da formação da dupla de ataque, Evenepoel passou a assumir grande parte do trabalho na frente. A subida de Možjanca continuava sendo o principal obstáculo entre os líderes e a chegada.
O grupo perseguidor iniciou a última volta 26 segundos atrás. Rondel e Scaroni conseguiram se destacar na tentativa de reduzir a diferença, mas Evenepoel continuava imprimindo um ritmo elevado na frente.
Scaroni atacou Rondel próximo ao topo da subida e passou a buscar os dois líderes. A movimentação, entretanto, não foi suficiente para ameaçar a vantagem construída por Evenepoel e Ciccone.
A situação da fuga mudou também por uma questão tática. Ciccone não demonstrava disposição para dividir o trabalho com Evenepoel. O belga, que havia assumido boa parte da condução da fuga, continuou mantendo o ritmo mesmo sem contar com uma colaboração constante do italiano.
Para Evenepoel, a prioridade era aumentar a distância para os perseguidores e chegar aos quilômetros finais em condições de disputar o título no sprint.
Ciccone economiza energia para a chegada
A resistência de Ciccone em trabalhar na fuga tornou a parte final da prova particularmente importante do ponto de vista tático.
O italiano passou grande parte dos quilômetros finais preservando energia para o sprint, enquanto Evenepoel continuava responsável por manter a velocidade da dupla. A colaboração entre os dois só aumentou nos quilômetros finais.
Ciccone começou a contribuir de maneira mais efetiva nos últimos 3 km, depois que o carro de apoio de sua equipe chegou próximo aos ciclistas. Ainda assim, sua participação no trabalho permaneceu limitada, indicando uma estratégia clara de preservar energia para a disputa pela vitória.
Com os perseguidores afastados, a definição do título passou a depender exclusivamente do confronto entre Evenepoel e Ciccone.
A decisão no photo finish
Evenepoel chegou à última curva na frente. Ciccone, entretanto, executou uma trajetória mais eficiente e conseguiu ultrapassar o belga antes da reta final.
A vantagem obtida pelo italiano foi significativa para um sprint tão curto. Ciccone lançou sua aceleração primeiro e chegou a abrir alguns metros sobre Evenepoel.
O belga, porém, reagiu nos últimos metros. Evenepoel aumentou a velocidade progressivamente e recuperou a diferença até alcançar Ciccone praticamente sobre a linha de chegada.
A margem foi tão pequena que o vencedor precisou ser definido pelo photo finish. A imagem mostrou que Evenepoel conseguiu posicionar a bicicleta de maneira mais favorável no momento da passagem pela linha.
O belga garantiu assim seu primeiro título europeu de estrada na categoria elite.
“Foi uma situação um pouco complicada na penúltima passagem pela subida. Fiz um bom ataque, mas entrei rápido demais na curva e acabei escorregando”, explicou Evenepoel após a prova.
Segundo o campeão, a queda não alterou o planejamento da equipe. “No final mantivemos a calma e retomamos o plano. Então, lancei um ataque logo antes da descida e fiquei na frente com o Cicco.”
Sobre o sprint, Evenepoel reconheceu que chegou a acreditar que a vitória havia escapado.
“O sprint parecia meio… achei que não ia mais conseguir vencer, mas aí vi que ele estava perdendo bastante velocidade faltando 100 metros e consegui superá-lo bem na linha de chegada.”
Primeiro título europeu entre os profissionais
O resultado completa uma trajetória de sucesso de Evenepoel no Campeonato Europeu.
O belga já havia conquistado o título europeu de estrada na categoria júnior, em 2018. Entre os profissionais, porém, esta foi a primeira vez que ele vestiu a camisa de campeão europeu na prova de estrada.
Evenepoel também possui dois títulos europeus de contrarrelógio, conquistados em 2019 e 2025.
A vitória em 2026 amplia, portanto, seu histórico em competições continentais e representa uma resposta direta após o resultado abaixo das expectativas no Campeonato Mundial de estrada.
Mais do que uma vitória construída apenas pelo sprint, o título europeu foi resultado de uma corrida em que Evenepoel teve participação ativa na seleção do grupo, sobreviveu a uma queda em um momento decisivo e posteriormente assumiu a maior parte do trabalho na fuga com Ciccone.
Itália fecha o pódio
Embora tenha perdido a vitória por uma diferença mínima, a Itália terminou a competição com dois ciclistas entre os três primeiros.
Giulio Ciccone ficou com a medalha de prata, enquanto Christian Scaroni completou o pódio na terceira posição, a 59 segundos de Evenepoel.
Scaroni ainda teve participação importante na parte final da corrida. Depois de se destacar no grupo perseguidor, atacou Rondel próximo ao topo da última subida e tentou reduzir a diferença para os líderes.
A movimentação, contudo, não foi suficiente para alcançar Evenepoel e Ciccone.
Toms Skujiņš garantiu a quarta posição, 1min13s atrás do campeão, enquanto Iván Romeo completou os cinco primeiros colocados.
Um título definido nos detalhes
O Campeonato Europeu de Estrada 2026 terminou com uma diferença mínima entre os dois principais protagonistas. Ciccone teve uma trajetória mais eficiente na última curva e chegou a colocar a vitória em risco, mas Evenepoel encontrou força suficiente para recuperar a vantagem nos metros finais.
A decisão demonstra a importância dos detalhes em uma prova de estrada de alto nível. Depois de 197 km, uma curva, a escolha da trajetória e a forma de posicionar a bicicleta sobre a linha foram determinantes para definir o campeão.
Para Evenepoel, o resultado também representa uma recuperação após a frustração no Mundial. O belga não apenas conquistou o título, mas teve papel decisivo na construção da fuga vencedora e precisou superar uma queda quando a corrida já estava em sua fase decisiva.
A combinação entre capacidade de ataque, resistência e desempenho no sprint colocou Evenepoel novamente no centro do ciclismo internacional. Desta vez, com a camisa de campeão europeu.


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