Van Rysel estreia no MTB com RCR-XC de 32 polegadas e aposta na aerodinâmica

A Van Rysel entrou oficialmente no mercado de mountain bike com uma escolha que deixa clara a intenção da marca: disputar espaço imediatamente no segmento de alto desempenho. A fabricante, conhecida principalmente por suas bicicletas de estrada, gravel e triathlon, apresentou nesta quinta-feira (8) a RCR-XC, uma mountain bike de cross-country desenvolvida desde o início para utilizar rodas de 32 polegadas.

A bicicleta será utilizada pela Decathlon Ford Racing Team a partir da temporada 2027 da Copa do Mundo de XCO. O projeto também marca uma mudança importante dentro da estrutura da Decathlon, que passa a concentrar sua linha de bicicletas de competição sob a marca Van Rysel, deixando para trás a identidade Rockrider utilizada pelo time nos últimos anos.

A RCR-XC não é, portanto, apenas uma nova bicicleta no catálogo. Ela representa a entrada da Van Rysel em uma categoria na qual a competição tecnológica está avançando rapidamente, especialmente em torno das rodas de maior diâmetro.

Uma MTB desenvolvida em torno das rodas de 32 polegadas

A principal característica da RCR-XC está justamente nas rodas. Em vez de apresentar uma plataforma convencional de 29 polegadas e posteriormente desenvolver uma versão maior, a Van Rysel afirma ter concebido a bicicleta desde o início ao redor do padrão de 32”.

A estratégia coloca a marca entre os fabricantes que estão apostando no aumento do diâmetro das rodas como uma das possíveis próximas evoluções das bicicletas de XC.

Segundo a Van Rysel, o desenvolvimento começou a partir da análise de dados de competições realizadas depois dos Jogos Olímpicos de Paris 2024. Os engenheiros procuraram identificar em quais situações durante uma prova os atletas passam mais tempo e onde alterações no equipamento poderiam resultar em ganho de desempenho.

A lógica utilizada pela empresa foi concentrada em três variáveis: velocidade, potência e tempo.

O objetivo é simples. Se uma bicicleta consegue manter maior velocidade em determinados trechos ou exige menos potência para manter o mesmo ritmo, o ganho acumulado ao longo de uma prova pode representar segundos importantes na classificação.

É justamente nesse ponto que entram as rodas de 32 polegadas.

Um diâmetro maior aumenta a capacidade da roda de superar obstáculos e irregularidades do terreno sem alterar a trajetória da bicicleta na mesma proporção que uma roda menor. Em uma pista de XCO moderna, repleta de pedras, raízes, degraus e mudanças rápidas de terreno, essa característica pode favorecer a manutenção da velocidade.

Mas existe uma contrapartida: rodas maiores normalmente aumentam dimensões, massa e demandas estruturais. Por isso, desenvolver uma bicicleta de 32” competitiva não significa simplesmente instalar rodas maiores em um quadro de 29”.

A Van Rysel tomou outro caminho.

Quadro de carbono mais leve que a plataforma de 29”

Um dos dados mais interessantes apresentados pela empresa está relacionado ao peso do quadro.

De acordo com a Van Rysel, o quadro de carbono da RCR-XC, na configuração tamanho M, é 230 gramas mais leve do que a plataforma de 29 polegadas utilizada pelo Decathlon Ford em 2026.

A informação é relevante porque um dos principais questionamentos em relação às rodas de 32 polegadas está justamente no possível aumento de peso.

Se a bicicleta consegue utilizar rodas maiores sem penalizar o peso do quadro, parte da desvantagem teórica do sistema pode ser reduzida.

A marca afirma ainda que a rigidez da estrutura foi refinada durante testes realizados com os atletas do time. A traseira utiliza uma solução do tipo Flexstay, na qual parte da flexão necessária ao funcionamento da suspensão é obtida pela própria estrutura de carbono, eliminando a necessidade de determinados elementos móveis na região traseira.

A geometria completa ainda não foi divulgada, o que impede uma análise detalhada de números como reach, stack, ângulo de direção, comprimento das escoras e entre-eixos.

Esse ponto será importante quando a bicicleta chegar ao mercado, principalmente porque o uso de rodas de 32” exige alterações significativas na relação entre altura do eixo, posição do cockpit e geometria do quadro.

Aerodinâmica chega ao mountain bike de competição

A outra grande aposta da RCR-XC está na aerodinâmica.

A Van Rysel levou para o MTB uma metodologia que já utiliza no desenvolvimento de suas bicicletas de estrada: análise de dados de competição, testes em túnel de vento e validação com atletas profissionais.

Segundo a fabricante, os testes resultaram em uma economia de 15,5 watts a 35 km/h, quando comparada à bicicleta utilizada pelo Decathlon Ford na temporada de 2026.

É importante observar que esse número é uma alegação da própria Van Rysel, e não um resultado publicado por um laboratório independente. Ainda assim, ele mostra como a aerodinâmica passou a fazer parte do desenvolvimento das bicicletas de XCO

Durante muito tempo, a preocupação aerodinâmica no mountain bike era considerada secundária diante de fatores como peso, suspensão, pneus, rigidez e capacidade de tração.

O cenário está mudando.

As provas modernas de XCO possuem trechos técnicos intercalados com setores extremamente rápidos, subidas de alta velocidade e descidas nas quais o atleta pode permanecer vários segundos acima de 30 km/h. Nessas situações, a resistência do ar começa a assumir uma importância maior.

Além disso, o ganho aerodinâmico não depende apenas do quadro.

Rodas Zipp de alto perfil e cockpit integrado

As imagens da RCR-XC revelam um conjunto de rodas Zipp com aros de perfil bastante elevado, uma solução pouco comum em mountain bikes convencionais.

A própria Zipp ainda não divulgou todos os detalhes técnicos desse conjunto, mas a utilização de um aro mais profundo combina diretamente com a estratégia aerodinâmica da Van Rysel.

O cockpit também chama atenção.

A bicicleta utiliza uma combinação integrada de guidão e mesa com desenho bastante diferente do padrão encontrado em bicicletas de XC. O formato aparentemente busca compensar a elevação provocada pelas rodas de 32”, mantendo a posição das mãos mais baixa e próxima daquela encontrada em uma bicicleta convencional de 29”.

Essa solução é particularmente importante.

Aumentar o diâmetro das rodas eleva a posição do eixo dianteiro e, consequentemente, cria desafios para manter a altura do cockpit dentro de parâmetros competitivos. Em uma bicicleta de XCO, isso influencia diretamente a distribuição de peso, a posição do ciclista e o comportamento nas subidas.

A Van Rysel resolveu parte do problema utilizando um cockpit de desenho específico.

O resultado visual é incomum, mas tecnicamente faz sentido dentro da proposta da bicicleta.

Suspensão RockShox e transmissão SRAM

A RCR-XC apresentada para o time utiliza componentes de alto nível.

Na dianteira aparece uma nova versão da RockShox SID desenvolvida para rodas de 32 polegadas, com 130 mm de curso. O conjunto de suspensão também aparenta utilizar a tecnologia Flight Attendant, embora alguns detalhes da especificação definitiva ainda estejam em desenvolvimento.

Na transmissão, as imagens mostram componentes SRAM, incluindo grupo da família XX SL. Os freios são SRAM Motive e o canote telescópico utilizado no protótipo é um RockShox Reverb AXS de segunda geração.

Os pneus apresentados aparecem em versões de 32”, com Vittoria Peyote e Mezcal sendo observados nas diferentes imagens da bicicleta.

A escolha também mostra que a chegada das rodas de 32 polegadas começa a exigir uma cadeia completa de componentes compatíveis: garfo, rodas, pneus e eventualmente sistemas de transmissão e componentes estruturais precisam ser adaptados ao novo padrão.

O que as rodas maiores podem mudar no XCO?

A principal vantagem potencial das rodas de 32” está na capacidade de transpor obstáculos mantendo velocidade.

O maior diâmetro reduz o ângulo de ataque da roda dianteira diante de um obstáculo. Na prática, isso pode facilitar a passagem sobre pedras, raízes e degraus, especialmente em velocidades elevadas.

Existe também uma possível vantagem relacionada à estabilidade.

Uma roda maior tende a apresentar maior contato dinâmico com o terreno e pode ajudar a bicicleta a manter sua trajetória em determinados tipos de piso irregular.

Por outro lado, isso não significa que uma 32” seja automaticamente melhor em qualquer situação.

Curvas muito fechadas, mudanças rápidas de direção, trechos extremamente técnicos e circuitos com obstáculos pequenos e sucessivos podem exigir características diferentes da bicicleta.

Além disso, rodas maiores podem apresentar maior momento de inércia e demandar mais espaço físico no quadro.

É exatamente por isso que a experiência dos atletas da Decathlon Ford será importante.

O verdadeiro teste será a Copa do Mundo de 2027

A Van Rysel ainda não está apresentando a RCR-XC como uma bicicleta pronta para o consumidor comum.

Inicialmente, o modelo será utilizado pelos atletas profissionais da equipe Decathlon Ford durante a temporada de 2027. A empresa pretende utilizar as competições para coletar dados e feedback antes da comercialização. Ainda não foram divulgados preço, configuração definitiva ou data precisa de chegada às lojas.

Essa estratégia também permite que a marca faça ajustes na plataforma antes de colocar o produto à venda.

A equipe terá nomes importantes para realizar essa validação. Entre eles está Luca Martin, campeão geral da Copa do Mundo de XCO e XCC de 2026, que se transferiu para o programa Decathlon Ford após o encerramento da Cannondale Factory Racing. Cole Punchard também foi anunciado para a equipe de 2027.

Samara Maxwell e Savilia Blunk também fazem parte do projeto.

Isso significa que a RCR-XC não será testada apenas em condições controladas. Ela será submetida aos circuitos mais exigentes do calendário internacional, em situações nas quais peso, eficiência de pedalada, comportamento em curvas, tração, estabilidade e confiabilidade são colocados à prova simultaneamente.

Uma aposta tecnológica que ainda precisa ser comprovada

A chegada da RCR-XC representa uma mudança importante na estratégia da Decathlon para o mountain bike.

Em vez de utilizar a Van Rysel simplesmente para substituir o logotipo Rockrider, a empresa criou uma bicicleta completamente nova e a colocou diretamente no centro de uma das principais discussões técnicas do XC atual.

As 32 polegadas, a aerodinâmica, o cockpit específico, as rodas de alto perfil e o quadro de carbono mais leve que a plataforma anterior formam um conjunto claramente orientado para competição.

Mas existe uma diferença importante entre apresentar números de laboratório e comprovar vantagem em uma corrida.

Os 15,5 watts anunciados pela Van Rysel são relevantes, mas precisam ser interpretados dentro das condições do teste. O ganho real dependerá da velocidade, direção do vento, posição do ciclista, características do circuito e quantidade de tempo que o atleta passa em trechos suficientemente rápidos para que a aerodinâmica tenha impacto significativo.

Da mesma forma, as vantagens das rodas de 32” precisam ser avaliadas em diferentes tipos de circuito.

É possível que a maior roda ofereça ganhos claros em determinados terrenos e que esses benefícios sejam menos relevantes em outros.

Por isso, o principal capítulo da RCR-XC ainda não foi escrito.

Ele começará em 2027, quando Luca Martin, Samara Maxwell, Savilia Blunk e os demais atletas da Decathlon Ford colocarem a nova bicicleta no grid da Copa do Mundo.

Se a combinação de 32”, baixo peso e aerodinâmica funcionar como a Van Rysel espera, a RCR-XC poderá acelerar uma transformação que já começou no mountain bike de alto nível.

Se não funcionar, a temporada também servirá para mostrar os limites desse novo padrão.

De qualquer maneira, a Van Rysel escolheu uma forma bastante clara de entrar no MTB: não começou com uma bicicleta convencional de 29 polegadas. Começou apostando diretamente na próxima geração de bicicletas de XC.

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