Empresa americana apresenta sistema que usa o deslocamento natural da corrente da bicicleta para alinhamento automático da corrente

Sistema desenvolvido pela norte-americana Marginal Gain usa o deslocamento natural da corrente para alternar entre duas linhas de corrente sem câmbio dianteiro, bateria ou comando eletrônico. A proposta mira especialmente bicicletas com rodas de 32 polegadas

O pedivela triplo parecia definitivamente condenado à história do ciclismo. Durante anos, a indústria migrou de três coroas para duas e, posteriormente, para sistemas 1x, transferindo para o cassete traseiro a maior parte da responsabilidade pela amplitude de marchas.

Agora, uma nova proposta apresentada pela empresa norte-americana Marginal Gain sugere que a solução para alguns dos problemas criados pelos sistemas 1x pode estar justamente em uma ideia que o mercado praticamente abandonou: utilizar mais de uma coroa dianteira.

Batizado de Orient, o sistema combina três coroas dianteiras, mas não funciona como um tradicional pedivela triplo. A proposta é utilizar duas linhas de corrente diferentes, posicionadas de acordo com as metades do cassete. A própria movimentação lateral da corrente faz com que ela migre de uma linha para outra.

O resultado pretendido é uma transmissão com a simplicidade operacional de um sistema 1x, mas com uma amplitude de marchas e uma linha de corrente mais favorável. E há um detalhe particularmente interessante: não há câmbio dianteiro, bateria nem comando eletrônico para realizar a mudança.

O problema que a Marginal Gain quer resolver

A popularização das transmissões 1x trouxe uma mudança importante na arquitetura dos grupos.

Em vez de utilizar duas ou três coroas para distribuir as relações de transmissão, os fabricantes passaram a ampliar os cassetes. Atualmente, sistemas com 12, 13 ou mais velocidades permitem cobrir faixas bastante amplas usando apenas uma coroa dianteira.

A vantagem é evidente: desaparecem o câmbio dianteiro, o cabo ou sistema eletrônico correspondente e a necessidade de escolher entre coroas.

Existe, entretanto, um efeito colateral.

Quando a corrente precisa percorrer toda a extensão de um cassete muito largo, ela trabalha em diferentes ângulos em relação à coroa. Nas marchas mais externas, a corrente fica mais desalinhada.

Esse fenômeno é conhecido como cross-chaining e pode aumentar atrito, ruído e desgaste.

É justamente nesse ponto que o Orient tenta atuar.

Em vez de obrigar uma única coroa a trabalhar com todas as posições do cassete, o sistema cria duas linhas de corrente. Uma é destinada principalmente às engrenagens menores do cassete e outra às maiores.

Três coroas, mas sem câmbio dianteiro

Visualmente, a proposta pode lembrar um pedivela triplo convencional. O funcionamento, entretanto, é bastante diferente.

O conjunto possui três coroas. As duas externas correspondem às duas linhas de corrente utilizadas pelo sistema, enquanto a coroa central atua como elemento de transição.

Conforme o ciclista muda as marchas no cassete traseiro, a corrente se desloca lateralmente. Em determinado ponto, esse deslocamento faz com que ela passe de uma linha de corrente para a outra.

Não existe um mecanismo eletrônico ordenando a mudança.

Também não é necessário que o ciclista acione uma alavanca para trocar de coroa.

O próprio comportamento mecânico da corrente realiza a transição.

Por isso, a Marginal Gain classifica o sistema como uma solução mecânica e autônoma, sem bateria e sem câmbio dianteiro.

A ideia é interessante porque ataca simultaneamente dois conceitos que dominaram o desenvolvimento recente dos grupos: a simplicidade do 1x e a eficiência de uma linha de corrente mais alinhada.

A proposta é particularmente interessante para rodas de 32 polegadas

O Orient foi apresentado inicialmente associado a bicicletas equipadas com rodas de 32 polegadas, uma dimensão que vem aparecendo em projetos experimentais e bicicletas de gravel de alta performance.

A combinação não é casual.

Rodas maiores alteram a relação entre desenvolvimento, velocidade e geometria da bicicleta. Para manter relações adequadas, especialmente em terrenos variados, é possível precisar de uma faixa ampla de marchas.

A Marginal Gain afirma que seu sistema pode oferecer uma faixa correspondente a velocidades de aproximadamente 7,6 a 36,1 mph, o equivalente a cerca de 12,2 a 58,1 km/h. A empresa, porém, não informa na comparação qual cadência foi utilizada para chegar a esses números.

Essa ausência é importante.

Não é possível avaliar diretamente a utilidade da faixa de desenvolvimento apenas olhando para velocidades máximas e mínimas sem conhecer a cadência e as relações exatas utilizadas.

Ainda assim, a arquitetura faz sentido para uma bicicleta de grande diâmetro de roda, especialmente se o objetivo for combinar baixa relação para subidas com desenvolvimento suficiente para velocidades elevadas.

Comparação com transmissões convencionais

A Marginal Gain compara o Orient com configurações tradicionais de estrada.

Um conjunto compacto 46/33 dentes combinado a um cassete 10-33 é apresentado pela empresa como cobrindo aproximadamente 7,2 a 33,2 mph.

Já uma configuração 50/37 com cassete 10-26 seria capaz de chegar a aproximadamente 36,1 mph.

Mas existe uma ressalva importante.

As comparações não são perfeitamente equivalentes porque o sistema Orient utiliza roda de 32 polegadas, enquanto os exemplos convencionais utilizam rodas 700c. Além disso, o cassete 10-26 usado como referência não é uma configuração particularmente representativa das bicicletas de estrada modernas de uso geral.

Portanto, não seria correto concluir que o Orient já demonstrou ser superior a um grupo convencional.

O que existe, neste momento, é uma arquitetura diferente que apresenta algumas características potencialmente interessantes.

O ganho pode estar na eficiência da corrente

A justificativa técnica mais importante da proposta está na linha de corrente.

A Marginal Gain cita testes anteriores realizados com correntes Shimano e SRAM nos quais as perdas médias de potência foram de aproximadamente 6,89 W com 0° de desalinhamento, chegando a 9,84 W em ângulos maiores.

A empresa argumenta que contaminação por poeira, lama e outros elementos pode aumentar essas perdas.

O Orient procura minimizar justamente esse problema mantendo a corrente mais próxima de uma posição alinhada em relação ao cassete.

É preciso, entretanto, separar dados de testes anteriores daquilo que já foi comprovado pelo novo sistema.

A Marginal Gain ainda não apresentou dados independentes que quantifiquem quanto de potência o Orient efetivamente economiza em comparação com um sistema 1x convencional, especialmente em condições reais de gravel e lama.

Essa será uma das informações mais importantes para determinar se a ideia representa apenas uma solução engenhosa ou uma vantagem prática.

Menos cruzamento pode significar menor desgaste

Existe também uma possível vantagem para quem utiliza a bicicleta em ambientes contaminados.

No gravel, por exemplo, areia, poeira e lama entram constantemente em contato com corrente, cassete e coroas.

Uma corrente trabalhando em ângulo acentuado não apenas sofre com o atrito adicional, mas também pode apresentar maior desgaste ao longo do tempo.

Ao limitar os ângulos de trabalho, o Orient pretende reduzir parte dessa agressão mecânica.

A proposta, portanto, não está necessariamente concentrada apenas na economia de watts. Durabilidade da transmissão e comportamento em condições adversas também fazem parte da justificativa do projeto.

Ainda assim, esses benefícios precisam ser comprovados por testes de longa duração.

Não é um kit para instalar em qualquer bicicleta

Uma das limitações atuais é a compatibilidade.

O Orient não foi concebido como um simples componente que o ciclista pode comprar e instalar em qualquer bicicleta.

A distância necessária entre as linhas de corrente exige espaço adicional no quadro. Por isso, a Marginal Gain trabalhou com a Blackwater Bicycles, fabricante de bicicletas de titânio sob medida, para desenvolver quadros compatíveis.

O projeto utiliza uma solução pouco comum atualmente: chainstays elevados, conceito que apareceu em diversas mountain bikes das décadas de 1980 e 1990.

Ao elevar o chainstay e criar espaço ao redor do sistema de transmissão, o quadro ganha espaço para acomodar a arquitetura do Orient.

Isso também abre espaço para pneus maiores, com a empresa indicando capacidade para pneus de até 2,4 polegadas, além de possibilidades para futuros cassetes com mais de 13 velocidades.

Uma versão mais estreita pode mudar tudo

Talvez o desenvolvimento mais importante da Marginal Gain não seja a versão atual para bicicletas especiais.

A empresa está trabalhando em uma configuração mais estreita.

O sistema atual permite que as duas linhas de corrente sejam separadas por até 25 mm. O objetivo é desenvolver uma versão com apenas 12 mm de distância, permitindo sua utilização em quadros convencionais de estrada, gravel e mountain bike.

Se esse desenvolvimento for bem-sucedido, a tecnologia poderá deixar de ser uma curiosidade associada às rodas de 32 polegadas e passar a disputar espaço com transmissões convencionais.

A empresa também trabalha com a possibilidade de combinar a arquitetura com cassetes de 15 ou 16 velocidades.

Nesse cenário, a ideia fica ainda mais interessante: uma transmissão com duas linhas de corrente, 16 velocidades traseiras e mudança automática entre as linhas poderia eliminar completamente o câmbio dianteiro sem depender de uma bateria.

O peso também não é um problema evidente

Adicionar três coroas em vez de uma naturalmente levanta outra questão: peso.

Segundo estimativas da Marginal Gain, uma configuração Orient 1×16 teria aproximadamente 1.060 gramas.

Para comparação, a empresa estima em cerca de 1.124 gramas o peso de um sistema gravel 1×13 convencional de alto nível.

É importante observar que são números estimados e fornecidos pela própria empresa, e não uma comparação independente entre produtos disponíveis comercialmente.

Ainda assim, o dado é relevante porque mostra que o objetivo não é simplesmente colocar duas coroas adicionais em uma bicicleta.

A arquitetura foi pensada desde o início para compensar parte da massa adicionada em outras áreas da transmissão.

Uma tendência maior está aparecendo

O Orient não está sozinho em tentar repensar a transmissão tradicional.

Nos últimos anos, diferentes fabricantes passaram a questionar a necessidade de concentrar todas as relações na parte traseira.

A Classified, por exemplo, desenvolveu um sistema com duas velocidades internas no cubo traseiro, permitindo substituir a função de uma segunda coroa sem utilizar um câmbio dianteiro. A solução já chegou a bicicletas de estrada, gravel e mountain bike e também foi utilizada em aplicações de competição.

A Shimano, por sua vez, apresentou o Q’Auto, sistema de transmissão automática alimentado por um cubo-dínamo e sem a necessidade de uma bateria convencional central para alimentar as mudanças.

Essas tecnologias apontam para uma direção interessante.

O futuro das transmissões pode não ser simplesmente uma sequência de cassetes cada vez maiores.

Pode envolver sistemas que distribuam as relações de forma diferente, automatizem decisões e reduzam os problemas de alinhamento da corrente.

O triplo pode estar voltando — mas não como antes

É improvável que o pedivela triplo tradicional volte às bicicletas de estrada exatamente como era nos anos 1980 ou 1990.

A proposta do Orient é outra.

Em vez de três coroas selecionadas diretamente pelo ciclista, temos uma arquitetura na qual as coroas fazem parte de um mecanismo que administra automaticamente a linha de corrente.

Na prática, o ciclista continua utilizando o câmbio traseiro.

O sistema é que decide quando a corrente deve mudar de uma linha para outra.

Isso cria uma espécie de “1x com duas linhas de corrente”, conceito que a própria Marginal Gain utiliza para explicar sua proposta.

É uma solução incomum, mas tecnicamente coerente com o caminho que a indústria vem tomando.

Ainda é um conceito a ser provado

Apesar de interessante, o Orient está longe de representar uma revolução consolidada.

O primeiro obstáculo é a produção em escala.

O segundo é a compatibilidade com quadros existentes.

O terceiro é comprovar que a redução do desalinhamento realmente proporciona uma vantagem mensurável em potência, desgaste e durabilidade.

Também será necessário avaliar o comportamento da troca automática em condições reais.

Uma coisa é fazer a corrente migrar mecanicamente de uma linha para outra em um ambiente controlado. Outra é garantir que essa transição seja previsível sob forte torque, lama, areia, mudanças rápidas de marcha e diferentes condições de carga.

Esses serão os testes que determinarão se a proposta tem futuro comercial.

Uma ideia antiga, aplicada de maneira nova

O mais interessante no Orient não é simplesmente o retorno de três coroas.

É a maneira como a Marginal Gain está tentando resolver um problema criado pela própria evolução dos grupos.

A indústria eliminou o câmbio dianteiro e aumentou o número de marchas traseiras. O resultado foi uma transmissão mais simples para o usuário, mas que passou a exigir que a corrente trabalhasse em uma faixa angular cada vez maior.

Agora, uma empresa pequena está propondo dividir novamente essa responsabilidade entre duas linhas de corrente — utilizando três coroas, mas sem pedir ao ciclista que opere um câmbio dianteiro.

Se a versão de 12 mm chegar a funcionar com quadros convencionais e, principalmente, se a empresa conseguir combinar o sistema com cassetes de 15 ou 16 velocidades, o conceito pode se tornar muito mais relevante.

O pedivela triplo pode não estar voltando. Mas a ideia de usar mais de uma linha de corrente para obter uma transmissão ampla talvez esteja apenas começando uma nova fase.

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